17 de mai de 2016

Alexitimia- A fala rouca do coração

  Descrever sentimentos, falar sobre as sensações do corpo, identificar, distinguir todas essas sensações é comum no dia a dia ou no processo psicoterapêutico quando estamos diante à estímulos, seja relatando, assistindo ou imaginando, mas nem todos indivíduos têm isso como um processo natural de descarga de emoções, ou seja, não é egossintônico.
  Desde o surgimento e prática da  Psicologia na década de 60,  psicólogos foram percebendo que um número elevado de pacientes tinham dificuldades para falar de suas emoções e sentimentos, conceituando-se como alexitimia.
   A alexitimia é uma perturbação que prejudica o processamento emocional, em que as pessoas tendem a ter dificuldades de expressar, identificar  e descrever o estado emocional e os sintomas físicos de forma adequada. A alexitimia surgiu nos estudos da psicossomática, tendo o termo fundado por Sifneos nos anos 70 na Universidade de Harvard, e hoje pode-se descrever a alexitimia em algumas características como:

- Dificuldades de identificar sentimentos
- Saber distinguir entre sentimentos e sensações físicas de um determinado estímulo
- Dificuldades de descrever sentimentos à outras pessoas
- Diminuição nos processos cognitivos (atenção, imaginação, memória, pensamentos)
- Comportamentos concretos e operacionais
- Déficit comunicacional
- Baixa auto estima


    Explicações sobre a causa da alexitimia vão de diferentes fundamentações e teorias.
Pode ser traumas/lesões cerebrais, desordens na formação neurológica, influências sócio-culturais ( traumas ocorridos na primeira infância) do indivíduo e sua relação com o ambiente e suas primeiras interações, principalmente durante o desenvolvimento das habilidades sociais.
   As respostas do Sistema Nervoso Autônomo Parassimpático, para os alexitimicos, são de uma definição operacional, como se houvesse um elo perdido, um desacordo, falta de permissão à imaginação de uma figura que remeteria à emoções que poderiam ser emergidas.
    É de grande importância para o psicoterapeuta, o domínio sobre a alexitimia e como a mesma ocorre, até pela dificuldade acarretada na comunicação  do paciente, da percepção de si, dos outros e do mundo com relevante impacto em toda esfera relacional ( parentalidade, relações interpessoais/conjugais/profissionais) e que as manifestações emocionais são permeadas de somatizações  e as emoções apresentadas como vazias e sem especificidade ou característica.
     O trabalho da psicoterapia consiste em ajudar o portador a discriminar sentimentos, sensações corporais, orientar e psicoeducar sobre a alexitimia, o como ocorre, respeitar plenamente o momento do paciente e encorajar passo a passo para melhora e assertividade do paciente e seus sentimentos e sensações.
Por trás da fala rouca do coração, existe um oceano transbordando emoções,dores, lágrimas,amores,risos, e prazeres.

"Em geral quando termino um livro encontro-me numa confusão de sentimentos, um misto de alegria, alívio e vaga tristeza. Relendo a obra mais tarde, quase sempre penso ‘Não era bem isto o que queria dizer’."



Arythana de Freitas Soares

Psicóloga cognitivo-comportamental- CRP 04/43456
Fone: (34) 3083-6720

13 de mai de 2016

A boa mãe - a mãe que se torna desnecessária

A partir desta única frase podemos refletir sobre a educação dos filhos. Na verdade, não só sobre o que seria ser uma boa mãe como também um bom pai...
A seguir um texto ótimo para essa reflexão:

"A boa mãe é aquela que vai se tornando desnecessária com o passar do tempo. Várias vezes ouvi de um amigo psicanalista essa frase, e ela sempre me soou estranha. Chegou a hora de reprimir de vez o impulso natural materno de querer colocar a cria embaixo da asa, protegida de todos os erros, tristezas e perigos.
Uma batalha hercúlea, confesso. Quando começo a esmorecer na luta para controlar a super-mãe que todas temos dentro de nós, lembro logo da frase, hoje absolutamente clara. Se eu fiz o meu trabalho direito, tenho que me tornar  desnecessária. Antes que alguma mãe apressada me acuse de desamor, explico o que significa isso.
Ser “desnecessária” é não deixar que o amor incondicional de mãe, que sempre existirá, provoque vício e dependência nos filhos, como uma droga, a ponto de eles não conseguirem ser autônomos, confiantes e independentes. Prontos para traçar seu rumo, fazer suas escolhas, superar suas frustrações e cometer os próprios erros também.
A cada fase da vida, vamos cortando e refazendo o cordão umbilical. A cada nova fase, uma nova perda é um novo ganho, para os dois lados, mãe e filho.
Porque o amor é um processo de libertação permanente e esse vínculo não pára de se transformar ao longo da vida. Até o dia em que os filhos se tornam adultos, constituem a própria família e recomeçam o ciclo. O que eles precisam é ter certeza de que estamos lá, firmes, na concordância ou na divergência, no sucesso ou no fracasso, com o peito aberto para o aconchego, o abraço apertado, o conforto nas horas difíceis.
Pai e mãe – solidários – criam filhos para serem livres. Esse é o maior desafio e a principal missão.
Ao aprendermos a ser “desnecessários”, nos transformamos em porto seguro para quando eles decidirem atracar."
“Dê a quem você Ama :
– Asas para voar…
– Raízes para voltar…
– Motivos para ficar… ”
(Dalai Lama)

Célia Gonçalves dos Santos
Psicóloga Clínica e Neuropsicóloga
CRP 04/IS00497   Tel:(34) 3083-6720
Área de anexos

7 de mai de 2016

Pelo direito de não ser a melhor mãe do mundo



Estamos no mês das mães e as redes sociais estão “bombando” de declarações de filhos para suas mães. A frase mais utilizada é sempre essa “eu tenho a melhor mãe do mundo” e, de alguma forma, esse jargão sempre me faz pensar.

Escrevo hoje, em primeira pessoa, para fazer algumas reflexões a partir do meu viés, considerando poder estar com minha percepção, talvez, distorcida.

Ainda não sou mãe, mas desejo muito ser. Quando a ideia da maternidade passa pela nossa cabeça, a ideia de ser “a melhor mãe do mundo” lateja na mente numa intensidade incontrolável. Juntamente a esse pensamento, inúmeras dúvidas e questões como “será que terei tempo?”, “conseguirei fazer meu filho feliz?”, “Tenho maturidade? Dinheiro?”, “E os perigos do mundo? Drogas?”, “Será que ele gostará de mim como mãe?”, “Será que me achará a melhor mãe do mundo?”, e por aí vai.

Acredito que minha mãe também possa ter tido muitas dessas dúvidas. As mães sempre me dizem que a rotina muda totalmente, além do financeiro, horários, prioridades, mas a maioria diz não se arrepender dessa escolha. No entanto, as cobranças que, de alguma forma, as mães fazem sobre suas atuações podem gerar ansiedade intensa, advinda da busca da perfeição que, na verdade, pode não ser tão perfeita assim. No consultório percebo muitas mães que, por buscarem ser as “melhores do mundo”, acabam por se tornarem superprotetoras, controladoras ou até mesmo, pasmem, ausentes. Muitas acham um “fracasso” buscar a ajuda de um psicólogo, muitas se cobram e muitas acham que não precisam mudar – que fizeram de tudo pelos seus filhos e o problema está exclusivamente neles.

Mas as coisas não precisam ser bem assim. Ser mãe é também entender que erros existem e que isso é humano. Não adianta, vamos errar (falo com sinceros pêsames isso). E não vamos errar apenas uma vez – serão várias. Mas calma, não quero dizer para simplesmente aceitarmos isso, não nos importarmos mais com nossas condutas e pararmos de dedicar aos filhos. Muito pelo contrário. Os pais, não apenas as mães (na verdade todo esse texto cabe também aos homens e apenas está mais orientado a elas pela ocasião festiva) devem sim buscar serem bons e desenvolverem em seus filhos responsabilidade, afeto e compromisso, mas de maneira equilibrada, compreendendo que os erros virão e que até mesmo as frustrações são essenciais para o desenvolvimento humano. O maior problema nem sempre está na hora em que os erros acontecem, mas nas atitudes que tomamos depois que erramos.

Mãe e pai têm o direito de errar, de não serem perfeitos e de terem responsabilidade quando esses erros ocorrem. Mãe pode pedir perdão! Como seria lindo se todas as mães soubessem que não são menores nem piores quando pedem perdão aos filhos, expressam seus sentimentos e aprendem com eles! Ser responsável pela criação de um filho abrange cuidado, dedicação, afeto, amor, buscar pensar bem sobre suas decisões mas, também, assumir a possibilidade de erros e lidar com suas consequências de forma ponderada e madura. Além do mais, maternidade não tem receita ideal, não é bolo.

Voltando ao que me motivou a escrita desse texto, a maior prova de que ninguém precisa ser a melhor mãe do mundo está exatamente nas declarações de seus filhos dizendo que têm A MELHOR! Esse é o momento em que, talvez os filhos tentem dizer: “Mãe, você é perfeita para mim mesmo com erros, defeitos, falhas...” e acho bonito que, neste dia, mesmo com os problemas, o destaque fique apenas para o que mais importa: o amor. Com certeza tanto as mães quanto os filhos podem ter muito a mudar, aprender, reestruturar. Considerar que todos nós temos nossas imperfeições nos leva a compreender mais (não necessariamente aceitar todas as atitudes dos outros) e, de maneira empática, contribuir para a evolução do outro e de nós mesmos.

Sim, luto pelo direito das mães não serem as melhores mães do mundo, mas acho que, a partir dessa busca, talvez elas possam até serem consideradas ainda mais perfeitas pelos seus filhos.

Pra finalizar, FELIZ DIA DAS MÃES!!!!



Aproveitando, feliz dia das mães para a minha mãe que, imperfeita, é a melhor mãe do mundo pra mim. 


Psicóloga Cognitivo-comportamental
Neuropsicóloga
CRP 04/3434-6

26 de abr de 2016

Como você lida com sua sexualidade? - Algumas reflexões

Vamos fazer um rápido exercício: Pense por um instante nas formas de expressar carinho, amor, desejo, excitação, que você já presenciou. Deixe as cenas brotarem de sua memória, sua família seus pais, você mesmo, como acontecia? Seus pais se beijavam na sua frente? Trocavam carícias, andavam de mãos dadas, lado a lado ou um na frente outro atrás?, conversavam sobre sexo, amor, carinho com você?, censuravam  filmes, horários de TV? Reagiam com vergonha ou com naturalidade as suas perguntas? Estavam presentes…
Agora lembre-se de como você lidava com tudo isso, você era tímido, ousado, curioso? Tinha medo de fazer perguntas ou não?…contentava-se com qualquer resposta? Conversava com amigos(as) sobre suas dúvidas? Por último tente detectar a influência de tudo isso em sua sexualidade hoje.
Entendo que trata-se de uma tarefa ampla para ser feita num breve instante, e obviamente não coloquei aqui todas as variáveis que deveríamos considerar, mas é apenas o início de um exercício que poderá ajudá-lo a compreender a influência de nossas experiências em nosso comportamento, principalmente na expressão de nossos sentimentos.
Hoje a expressão de sua sexualidade com alta chance é o resultado dessa difícil e complexa equação: tudo que recebeu de informação – conceitos e preconceitos, mitos e verdades – somados a sua forma particular de decodificar aquilo que recebeu – seu ”óculos”.
A escolha sexual, passa por um processo físico, emocional e social. Como podemos perceber,
recebemos modelos de comportamento em nossa educação e nascemos com características particulares. Aprendemos a nos vestir, a nos movimentar de forma “adequada”, ou esperada socialmente , a escolher o que comer, a torcer por um time , ou um esporte, a gostar de TV ou não. Tudo isso de forma explícita ou nem tanto, dependendo do grau de consciência dos educadores que cada um de nós teve. Da mesma forma aprendemos a “lidar” com nossa sexualidade.
Nossos envolvimentos amorosos passam por nossas buscas, insatisfações, fantasias, crenças, medos, certezas e entendimentos de mundo. O ser humano naturalmente busca se envolver afetivamente e amorosamente. A demanda do ser humano é uma demanda de amor, o prazer, o carinho, fazem parte desta esfera.  O tipo de parceiro(a) que escolhemos está relacionado a esses modelos que recebemos durante nosso desenvolvimento, às pessoas que conhecemos, e histórias que acompanhamos.
As formas que buscamos para obter prazer relacionam-se a nossas fantasias, desejos, e as possibilidades de realizá-los. O ser humano é um complexo formado por razão , emoção e espiritualidade. O desejo é livre, podemos desejar muitas coisas, mas, a execução desses desejos passa pelo crivo da nossa razão e espiritualidade. O que quero dizer é que desejar  é expressão do humano que existe em nós, mas executar o desejo é expressão de nossa saúde interna, de nossa capacidade de adequação, ou habilidade para viver socialmente, e de nosso entendimento de mundo.
Durante o desenvolvimento pessoal temos a difícil tarefa de aprender a respeitar nossos valores, sermos espontâneos em nossos desejos e criativos, procurando o caminho para superar nossas limitações. Difícil também é detectar nossos desejos. Os desejos enquanto substância humana são a expressão de nossa individualidade.
Ainda temos muitos preconceitos mesmo nos dias de hoje. A homossexualidade por exemplo ainda é alvo de ataques e desrespeito. A liberdade de escolher e de ser o que se deseja ainda está longe de ser conquistada, ainda há de se crescer muito e amadurecer nosso modo de nos relacionar com aqueles que pensam, sentem e percebem o mundo de  maneira particular e diferente de nós.
A virgindade hoje em dia tornou-se um tabu ao “contrário”, entre os jovens o “crime” agora é servirgem e não mais não ser como a 40 ou 50 anos atrás, apenas se inverteu a posição, portanto o preconceito ainda impera absoluto.
A virgindade não é apenas uma questão de “transar” ou não, mas está diretamente relacionada á noção de respeito próprio, capacidade para cuidar de si e  responsabilidade. O jovem estará preparado quando a relação sexual, não for uma obrigatoriedade ou apenas mais uma afronta. É comum escutar frases do tipo …”todas as minhas amigas da minha idade já transaram”…, ou,  “quando alguém me pergunta ,eu vou logo dizendo que é claro que já tive a minha experiência”…, ou, “sou chamada de “vacilona”  porque não quis transar ainda”... Este é um importante aprendizado emocional: assumir nossas escolhas e “bancar” suas conseqüências.
A noção de respeito e individualidade ainda é muito confusa socialmente. No brasil a sexualidade é algo explorado e produto da mídia, somos o país das mulatas e dos biquínis. As crianças são estimuladas através das roupas, acessórios, TV, músicas e até algumas danças, a voltarem sua atenção para a sexualidade, algumas vezes perdendo com isso, seu espaço de serem crianças simplesmente  porque a sexualidade faz parte do mundo do jovem/adulto e não da infância.
Comerciais de TV, aludem a sexualidade, mulheres são associadas a cervejas ou ao prazer provocado por elas. A mídia é a expressão do imaginário humano,  refletindo idéias, valores, desejos e fantasias da atualidade. A mulher como objeto sexual ainda vende, mas o homem também passou a ser produto de consumo.
Estamos numa época de reformulação de valores, idéias e crenças. O ser humano está sempre em evolução e transformação. Nossos entendimentos de bom e mau, certo e errado modificam-se de acordo com o prisma que escolhemos para decodificar a vida.
A sexualidade deve ser olhada e aceita como algo natural que faz parte do desenvolvimento, das descobertas, experiências pessoais e principalmente da  expressão da vida. Para vivenciar a própria sexualidade sem culpas ou sofrimentos é necessário respeito próprio e enfrentamento dos próprios medos, conseguidos apenas através da ampla consciência de quem somos e da noção de nossas possibilidades e responsabilidades.
Créditos: Sirley R. S. Bittu
Teresa Cristina Martins Silva
Psicóloga clínica
Terapeuta de casais e família
(34) 3083-6720

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