19 de nov de 2013

Você já se sentiu ofendido? Reflexões sobre o perdão interpessoal




                                       Peanuts, por Charles M. Schulz.                

 São grandes as chances de que as pessoas se sintam ofendidas, magoadas ou injustiçadas em graus variados, ao longo da vida. Estudos apontam que muito do que as pessoas experimentam como injustiça e mágoa é parte da rotina dos relacionamentos que se dão em família, na escola e no trabalho, ocasionado,frequentemente, por aqueles considerados muito próximos. (Rique, n.d; Rique, Camino, Enright & Queiroz, 2007). Esse dado serve de justificativa para se começar a pensar nos benefícios de se conhecer mais sobre o perdão interpessoal, que pode ser encarado como uma alternativa àquelas respostas que envolvem retaliação, vingança ou revanche. Tais ações acarretam, muitas vezes, (mais) consequências negativas irreparáveis, especialmente se pensarmos que a espécie humana é marcadamente gregária e interdependente. E que, portanto, tem no relacionamento estabelecido entre os seus – e mantido, apesar de adversidades – uma fonte importante de suporte. Vide, por exemplo, a importância atribuída à instituição familiar e às amizades.

2.     Os benefícios que o comportamento de perdoar pode produzir englobam aspectos físicos, psicológicos e mesmo espirituais. O perdão pode afetar a saúde física das pessoas, uma vez que o “não perdão” – entendido como a manutenção de ressentimento em relação ao ofensor – gera um estresse consideravelmente elevado e frequente, que pode levar a pessoa ressentida a experimentar desordens nos sistemas imunológico e cardiovascular, por exemplo. De acordo com Enright e Rique (2001), o perdão tem implicações positivas para o desenvolvimento emocional e psicológico, havendo inclusive pesquisas que apontam que quanto maior a disposição em perdoar, menores os níveis de ansiedade, expressão da raiva, e depressão, e maiores os níveis de bem-estar. Além disso, há pesquisas que sugerem que o perdão implique numa configuração de emoções positivas (empatia, simpatia, compaixão, ou amor) contra emoções negativas relacionadas à ofensa sofrida, funcionando, deste modo, como uma estratégia de enfrentamento para reduzir reações de estresse a uma transgressão e promover resiliência (Worthington & Scherer, 2004). Por fim, o perdão pode estar associado com uma melhor saúde espiritual uma vez que, experimentar, e expressar perdão pode produzir mais paz, pontos de vista harmoniosos, mesmo para aqueles que não são religiosos, podendo haver a partir daí, um incremento na espiritualidade dos indivíduos.

3.     O perdão ocorre somente entre pessoas – sendo, portanto, um processo interpessoal –  e não entre pessoas e forças da natureza, situações e eventos. Em outras palavras, o perdão é uma atitude por parte de alguém que sofreu uma afronta, e é direcionado àquele que praticou a ofensa. (Enright, Freedman & Rique, 1998).

4.     É importante entender que perdão não é o mesmo que esquecimento;desistência da busca por justiça; e reconciliação. Esquecimento implica que a memória da ofensa seja suprimida da consciência. Entretanto, ao perdoar não deixaremos de nos lembrar da afronta, mas torna-se possível relembrar a situação de um modo diferente e menos perturbador. Reconciliação, por sua vez, sugere a restauração do relacionamento. Para que possa haver reconciliação deve haver alguma forma de perdão, entretanto, para perdoarmos, não necessariamente deve ocorrer reconciliação (dito de outro modo, é possível que se perdoe, mas que não se deseje manter o relacionamento com o ofensor). Em relação a este último ponto, “a distinção básica entre perdão e reconciliação é que perdoar envolve a resposta de uma pessoa a uma ofensa. Reconciliação envolve duas pessoas relacionando-se bem novamente” (Enright et al., 1998, p. 49).

5.     Perdão é uma atitude moral na qual uma pessoa considera abdicar do direito ao ressentimento, julgamentos negativos, e comportamentos negativos para com a outra pessoa que a ofendeu injustamente, e, ao mesmo tempo, nutrir sentimentos imerecidos de compaixão, misericórdia, e possivelmente amor para com o ofensor. (Enright et al., 1998, p.46-47). Nesta definição, é importante enfatizar alguns aspectos: a ofensa é considerada injusta e infligida por outra pessoa; o perdão é uma escolha ou disposição por parte da vítima, e não uma obrigação, uma vez que a pessoa ofendida tem direito a ressentir-se; e a nova postura da pessoa ofendida inclui mudanças em três dimensões em relação ao ofensor: nos sentimentos (superação do ressentimento por meio da compaixão), nos pensamentos (superação da condenação/julgamento negativo por meio do respeito e/ou generosidade), e no comportamento (superação da indiferença ou tendência à vingança, por meio de um senso de boa vontade, ou mesmo tolerância).Em outras palavras, perdoar é um processo – que se desenrola no tempo, e, portanto, varia de pessoa para pessoa – e envolve a redução de pensamentos, sentimentos e comportamentos negativos, e o aumento de pensamentos, sentimentos e comportamentos positivos, em relação ao ofensor.

6.     Segundo propõe Enright e North (1998), perdoar envolve o processo de refraiming – ou reenquadramento – como passo necessário para o perdão. Durante este processo, o ofendido é estimulado a ver o ofensor num contexto mais amplo que aquele em que se deu a ofensa, na tentativa de construir uma imagem completa dele e de suas ações e motivações, considerando as pressões sob as quais se encontrava no momento da ação, e compreendendo a personalidade do transgressor como resultado de sua historia particular de desenvolvimento. E não como algo inato, como se o sujeito fosse naturalmente “maldoso”. Deste modo, através do processo de refraiming o sujeito expande suas formas de significação quanto à transgressão, de modo que possa avaliar novas alternativas de interpretá-la e então responder a ela. Tendo em vista que perdoar envolve substituir atitudes negativas por outras mais conciliadoras, muitas vezes é necessário atentar para novas informações – sobre a afronta, sobre o ofensor e inclusive sobre si mesmo – que podem permitir à pessoa ofendida ampliar sua avaliação sobre a injustiça sofrida, ponderando sobre atenuantes para o comportamento do ofensor, ou mesmo considerando que ela própria pode ter estado no papel de algoz e necessitado ou desejado o perdão de alguém, de modo que se torne flexível o suficiente para considerar o perdão como possibilidade. Dito de outro modo, perdoar requer um mínimo de empatia com o ofensor.

7.     Worthington (2005) enfatiza a importância da conexão entre os componentes emocional e motivacional, e descreve o perdão como sendo de dois tipos. Para ele, há o Perdão Decisional,  que envolve uma mudança nas intenções (objetivos a serem atingidos por determinado comportamento) de se comportar do indivíduo que sofreu a afronta, em relação ao transgressor (daí uma mudança na motivação). Há também o Perdão Emocional, que é a substituição de emoções negativas por outras emoções positivamente orientadas. De acordo com essa proposta, as emoções positivas neutralizariam algumas emoções negativas num primeiro momento, resultando num decréscimo das mesmas. Ao longo do tempo, havendo uma diminuição substancial das emoções negativas, emoções positivas poderiam ser então edificadas. Pode-se dizer que assim como Enright, Worthington também aborda perdão como um processo, que se inicia com uma decisão, e evolui até uma mudança emocional significativa por parte daquele que sofreu a ofensa.

8.     Conhecer a definição de perdão interpessoal, bem como entender o que perdão não é, é importante, pois pode facilitar o processo de perdoar. Quando alguém acredita que perdoar é o mesmo que reconciliar-se, talvez considere difícil inclusive iniciar o processo, já que a reconciliação é algo que o indivíduo pode não desejar a princípio. Por outro lado, encarar o perdão como um processo – que se concretiza no tempo – que tem início com uma decisão, um compromisso, pode ser bem mais manejável do que considerar que o perdão é algo ‘tudo ou nada’ ou mesmo ‘utópico’ – ou se perdoa totalmente e reconstrói-se a relação como era no passado ou não se perdoa de modo algum. Considerando as definições apresentadasanteriormente, se uma pessoa envolvida no processo de perdão, consegue ao menos reduzir os comportamentos negativos (como por exemplo, evitar consistentemente o ofensor em diversos ambientes e situações; ou tentar vingar-se), reduzir os pensamentos negativos (como por exemplo, julgar o ofensor insistentemente de modo negativo, mesmo em face de informações novas e contrárias) e reduzir os sentimentos negativos (como por exemplo, a raiva) para com o ofensor, podemos dizer que ela está progredindo em seu perdão, já que essa nova atitude já é um tanto distante de uma postura de ‘não perdão’ ou ressentimento. Se essa mesma pessoa consegue, além dessas mudanças, nutrir bons sentimentos, julgamentos mais equilibrados e comportamentos de aproximação em relação ao ofensor, podemos dizer que ela está cada vez mais próxima de um ‘perdão’ completo. Que fique claro, ao dizer isso não quero enfatizar a ideia de um perdão ideal, muito pelo contrário, não há perdão ideal, há pessoas em diferentes momentos do processo! Como gosto de dizer, cada um com o seu perdão!

9.     Agora, duas advertências: antes de tudo, perdoar é uma decisão, e por isso, deve ser tomada com sabedoria. Como dito anteriormente, perdoar produz benefícios, mas isso não quer dizer que se deva perdoar sempre, em qualquer circunstância, especialmente se considerarmos contextos abusivos, em que a vítima perdoa por medo, por se sentir coagida. Lembremos que perdoar não é esquecer nem desistir do pleito por justiça. É importante frisar isso, pois em alguns contextos, o perdão não é usado a serviço da saúde, mas sim com o intuito de parecer uma pessoa melhor ou socialmente correta, ou mesmo como uma estratégia de controle de outras pessoas. Conforme explica Enright, algumas vezes, embora as pessoas comuniquem o perdão ao ofensor, elas continuam lembrando-o continuamente de seu erro, exercendo dessa maneira uma superioridade ou controle incompatíveis com o perdão, que ele chama de Pseudoperdão, ou falso perdão. Outro ponto: perdoar leva tempo, e esse tempo varia de pessoa para pessoa. Considere uma situação de mágoa hipotética em que um ofensor expresse algum arrependimento e peça perdão à vítima, que após fazer suas considerações, decide perdoá-lo. Podemos dizer que nesse momento, são iniciados dois processos distintos, para ambos. Talvez para quem peça perdão e o receba, haja a crença de que ‘perdão dado, dívida sanada’, e haja a expectativa de que ‘tudo volte a ser como era antes’. Mas para quem perdoa, ou oferece o perdão, o processo começa naquele momento, ou mesmo se já tiver começado há algum tempo com a decisão de considerar o perdão como alternativa, é provável que leve ainda algum tempo. Desse modo, é necessário algum período para que ‘os tempos’ das pessoas envolvidas passem a andar no mesmo compasso. Como se vê perdoar é um empreendimento que traz bons resultados, mas demanda esforço, tanto de quem perdoa, quanto de quem é perdoado, que deve buscar meios de reparar seus atos, se possível for.

10.Há ofensas que parecem graves demais se comparadas às que perpassam o cotidiano da maioria das pessoas, mas isso não impede necessariamente o ato de perdoar e nem diminui a importância dessa atitude frente a situações de mágoa.Costuma-se discutir em que extensão o perdão é um evento extraordinário – algo que acarrete transformações fundamentais na vida – ou se se trata de algo bastante comum na experiência cotidiana das pessoas. Conforme diz Pargament (1997, citado por McCullough et al., 2001), o indivíduo que experimenta uma forma extraordinária de perdão pode ter maior probabilidade de responder com perdão a insultos e injúrias mais comuns, presentes em seu cotidiano. Por outro lado, a experiência e a prática com formas ordinárias de perdão, em resposta a ofensas “menores” podem estabelecer o estágio para expressões mais profundas de perdão em resposta a traumas de vida maiores, que a pessoa possa, porventura, ter vivido ou ainda vivenciar. Assim, como acontece com outros comportamentos, perdoar também se torna mais ‘fácil’ com a prática.

Finalmente, muito se fala também sobre a necessidade de que aprendamos a perdoar a nós mesmos ao longo da vida. Em relação a isso, esses esclarecimentos também se aplicam, com a diferença de que nesse caso, aquele que perdoa e aquele que recebe o perdão, são a mesma pessoa. Assim, perdoar a si mesmo, é também um processo, que começa com uma decisão, e envolve mudanças, especialmente, na maneira como pensamos e sentimos em relação a nós próprios. 

Colaborou:
Rodrigo Gomes Santana
Psicólogo pela UFU
Mestre em Psicologia aplicada
Autor da dissertação de mestrado: 


Um comentário:

Janaína e Adriano disse...

Muito bom! Perdoar é um ato nobre que não é fácil, mas acredito que seja o caminho para um livramento de consciência e de paz pro coração.

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