27 de out de 2015

Você já olhou para sua criança interior?

"Há um menino
Há um moleque
Morando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto balança
Ele vem pra me dar a mão

Há um passado no meu presente
Um sol bem quente lá no meu quintal
Toda vez que a bruxa me assombra
O menino me dá a mão"
Bola de meia, bola de gude - Milton Nascimento

No mês de outubro se comemora o "dia das crianças". Assim, gostaria de fazer um convite ao leitor: Como está sua criança interior? 
Quando criança expressamos nossas necessidades físicas e emocionais básicas: 
  •   desejamos ser aceitos, amados, cuidados e nos sentirmos pertencentes;
  •   tentamos desbravar o mundo buscando por senso de autonomia e competência;
  •   precisamos de alguém que nos dê limite e oriente;
  •   precisamos que nossas necessidades sejam validadas e não ignoradas;
  •   nos expressamos de forma espontânea e gostamos de brincar.
       No entanto, nem sempre essas necessidades são satisfeitas adequadamente e assim, na vida adulta podemos ter problemas emocionais que tiveram origem na nossa infância. Para sermos adultos saudáveis é fundamental que possamos validar e expressar essas necessidades supracitadas. Porém, muitas vezes, escondemos a nossa dor e não olhamos para a criança que fomos. Nos tornamos adultos enrijecidos que parece não "ligar" ou ser indiferente a essas necessidades de amor, conexão, amparo, carinho, autonomia, com limites realistas, que validam suas necessidades e conseguem tempo para relaxar, brincar e ser espontâneos. 
       Com a negação dessas necessidades primordiais, quando adultos, podemos ter problemas afetivos (dificuldades em várias esferas de relacionamentos); problemas de humor (ansiedade, depressão, bipolaridade) e até transtornos de personalidade. Dessa forma, é primordial olhar, resgatar e cuidar da criança que talvez tenha sido negligenciada em suas necessidades e que enquanto adultos continuamos a negligenciá-la.       A psicoterapia surge como uma ferramenta primordial para nos ajudar neste trabalho de acessar essas feridas infantis e compreender quais os impactos na vida adulta para que possamos curá-las. A Terapia do Esquema, proposta por J. Young, aponta alguns "modos de agir"  - denominados pelo teórico como "modos esquemáticos" que estão relacionados a essas carências da infância e que por mais que tentemos ignorar, estes modos operam de maneira inconsciente e aparecem na nossa vida adulta, muitas vezes guiando situações cotidianas. São eles:

  • Criança vulnerável: quando a pessoa tem crenças de que ninguém suprirá suas necessidades emocionais. Sente excluída e rejeitada. Tende a acreditar que os outros a abandonarão ou abusarão dela.  Ex. Quando a pessoa convida um amigo para sair, e o amigo diz que não pode ir, automaticamente interpreta que o amigo a rejeitou ou não gosta tanto assim dela. Outro exemplo é quando a pessoa busca desesperadamente por atenção que chega a "sufocar" parceiros, amigos e etc.
  • Criança zangada: a pessoa acredita estar sendo injustiçada por suas necessidades não estarem sendo atendidas. Demonstram-se com raiva, agressivas e furiosas. Podem perceber de forma distorcida que estão sendo traídas, rebaixadas ou abandonadas. Ex. Quando a pessoa convida o amigo para sair e este diz que não pode, acusa o amigo de ter saído com outro colega do grupo numa outra ocasião e se mostra muito bravo com a indisponibilidade do amigo, considerando como um ataque pessoal.
  • Criança impulsiva: A pessoa age impulsivamente, buscando satisfazer desejos (não centrais) de forma egoísta e descontrolada. Pode tornar-se enraivecida caso não sinta-se realizada. Ex. A pessoa liga para um amigo, o convida para sair e o mesmo diz que não pode. A pessoa vai até a casa do amigo e insiste para que o mesmo saia com ela. 
  • Criança indisciplinada: A pessoa demostra total falta de tolerância à frustração, não suportando qualquer desconforto em tarefas de rotina ou aborrecidas. Pouquíssima tolerância à dor, conflito ou persistência. Ex. Diante de um trabalho difícil para entregar, procrastina, joga a culpa no professor, pede para os colegas fazerem e se exime da responsabilidade.
  • Criança feliz: Sente-se amada, conectada, compreendida, validada e satisfeita. Ex. A pessoa convida um amigo para sair, o mesmo diz que não pode. Ela compreende e busca outra companhia ou tenta fazer algo que lhe dê prazer sozinha, geralmente o que chamamos de "hobby" que praticamos. 
Talvez você tenha se identificado com um ou mais desses estados e isso é natural em algum grau. Porém precisamos olhar atentos para a nossa criança afim de satisfazer as necessidades que foram eventualmente negligenciadas, pois quando não cuidamos dessas necessidades continuamos a reproduzir na vida adulta padrões disfuncionais, como buscar parceiros e pessoas realmente indisponíveis, não estabelecer vínculos positivos através da nossa reatividade e indignação, agir impulsivamente ou de forma desequilibrada.  Para que possamos fazer escolhas mais saudáveis que reforcem a nossa criança feliz e o adulto saudável precisamos acolher e cuidar da nossa criança interna. 

Abaixo segue um vídeo que nos inspira a olhar para a criança interna, seja a que fomos ou seja a que geramos:

video

  Psicóloga Clínica
CRP 23049/04
(34) 3083-6720

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...