5 de dez de 2016

A dor do luto

Com a proximidade do final de ano, das comemorações em família e do inevitável balanço do ano que está acabando, é natural experimentar emoções como tristeza e saudade pela ausência de pessoas queridas, por estarem distantes ou, nos casos mais dolorosos, pela morte. Em muitas famílias, junto com a alegria pelos reencontros e a comemoração de conquistas, pairam lembranças nostálgicas e um tanto de pesar pelo que se perdeu, sejam pessoas, lugares, oportunidades ou sonhos. Mas, se lugares podem ser revisitados, oportunidades e sonhos se renovam, a perda de cônjuge, parente ou amigo representa a dor por algo irrecuperável.
 A morte é inevitável, faz parte do ciclo da vida, e nem por isso é um acontecimento fácil de superar ao contrário, dependendo de vários fatores, como grau de proximidade, tipo de relacionamento e como o falecimento se deu (doença longa, acidente, suicídio), pode causar tamanho sofrimento que leva à depressão. A morte de um filho, por exemplo, é tão devastadora que, muitas vezes, a família se desestrutura de tal forma que os pais se separam. Pelo espírito gregário do ser humano, as mortes coletivas, causadas por catástrofes naturais ou não, também provocam os sintomas percebidos no luto particular e suas consequências emocionais. 
 A dor de perder alguém é tão poderosa que cada um recorre a diversas formas de se defender perante o sofrimento. Segundo o psicanalista Bowlby, quanto maior a vinculação ou seja, o apego a ligação á pessoa perdida, maior será o sofrimento e a dor do luto. São várias formas de emoções e comportamentos que vão surgindo ao longo do processo de luto, que de acordo com Bowlby, organizam-se da seguinte forma:
  • Fase de choque e negação, na qual a pessoa pode sentir-se como desligada da realidade, meio atordoada e desamparada, imobilizada e perdida. A negação surge como defesa contra a dor da aceitação da perda;
  • Fase do protesto, que se caracteriza pelas emoções fortes, pelo sofrimento psicológico e pelo aumento da agitação física. Nesta altura, podem manifestar-se sentimentos de raiva contra si próprio (por não ter conseguido fazer mais nada) ou contra outras pessoas;
  • Fase do desespero, que se associa a momentos de apatia e depressão e que pode conduzir a um isolamento social e a um desinvestimento nas atividades diárias, aumentando o desinteresse, as dificuldades de concentração e os sintomas físicos (como insônias, perda de peso ou aumento de apetite, crises de choro, desesperança);
  • Fase da desorganização e reorganização que permite que a pessoa aceite a perda, integrando a importância da pessoa perdida e do seu significado no dia-a-dia, enfrentando a situação de forma mais consciente. As emoções já não estão á flor da pele e o desespero e a desesperança diminuem e o processo de cura emocional se inicia.

 A fase aguda do luto dura geralmente dois meses, podendo demorar um ano ou mais para que se vençam os sentimentos mais fortes. O luto precisa ser vivido em todas as suas fases, mas quando a dor da perda permanece muito grande ou quando a pessoa não manifesta sinais de reação poderá desenvolver-se uma situação de luto patológico, onde se assiste a uma fixação em alguma das fases. A pessoa vive com maior intensidade algum dos sintomas e o sofrimento se prolonga indefinidamente, com sintomas e complicações que comprometem sua vida quotidiana. Nesses casos deve-se recorrer a ajuda especializada e com a psicoterapia trabalhar sentimentos, estratégias e mecanismos internos que possibilitem a superação e permitam a evolução do processo de luto.
Texto contém referência de Maria Cristina Ramos Brito.

Célia Gonçalves dos Santos 
Psicologa Clínica e Neuropsicóloga - CRP: 04/IS00497
Telefone:3083 6720

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